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De cor

Conheço bem a tua decoração, cada fita, vestido ou penduricalho. Conheço de cor o teu sorriso, o jeito como me olhas, a forma como ajeitas as madeixas. Conheço o teu jeito de me repreender, de mostrar que estás zangada. Mas, por mais que tente, só arranho a superfície do que tu és: esfinge amorosa, flor deleitosa, bálsamo, tormenta e orvalho. És arte e música barroca, luz e sombra, harmonia e contraponto, som e fúria. Bem, tu és o que não sei dizer, o que não ouso descrever, aquilo que está para além de minha compreensão. Só sei, ainda que imprecisamente, sobre o que sinto: júbilo e lamento de amor.

O degelo do Tempo

Gota a gota e calmamente,
um iceberg de potencialidades
perde a sua suposta solidez,
liquefazendo-se no presente.
Nada é capaz de deter tal processo;
o aquecimento é inevitável.
Fica então aqui a nossa única certeza:
o líquido que aos poucos se derrama
deve ser muito bem aproveitado;
a água do degelo formará um rio,
e este rio, por consequência,
desaguará na vastidão oceânica.


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