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De cor

Conheço bem a tua decoração, cada fita, vestido ou penduricalho. Conheço de cor o teu sorriso, o jeito como me olhas, a forma como ajeitas as madeixas. Conheço o teu jeito de me repreender, de mostrar que estás zangada. Mas, por mais que tente, só arranho a superfície do que tu és: esfinge amorosa, flor deleitosa, bálsamo, tormenta e orvalho. És arte e música barroca, luz e sombra, harmonia e contraponto, som e fúria. Bem, tu és o que não sei dizer, o que não ouso descrever, aquilo que está para além de minha compreensão. Só sei, ainda que imprecisamente, sobre o que sinto: júbilo e lamento de amor.

O Fracasso da Razão

Antes da Era dos Alienistas e do surgimento de instituições manicomiais, a loucura era vista popularmente como uma forma de sabedoria, pois, naquela remota época, a fé cega na razão ainda não tinha se tornado dominante, como o é hoje, em todas as esferas da vida. Neste sentido, afastar-se da verdade para manter a sanidade nada mais é do que uma atitude de bom senso, pois, epistemologicamente falando, é bem provável que nunca alcancemos a verdade absoluta. Na realidade, uma pergunta leva à outra; quanto mais respostas obtemos, mais perguntas nos são apresentadas; é uma busca infinita – e como é fácil se perder em uma busca infinita! Achar que a Verdade pode ser encontrada é abandonar o Reino da Dúvida, é abraçar de vez a insensatez e a loucura, no caso, a própria loucura. E quantos vemos por aí que afirmam, em alto e bom som, que já a encontraram! Estes profetas de si mesmos, após a sua iluminação, tentam a todo custo espalhar a sua verdade, querendo que o mundo seja totalmente reconstruído à imagem e semelhança de seu ideário particular.  Dizem que a verdade é insuportável, que não devemos, para o nosso próprio bem, nos aprofundarmos em certos assuntos, mas isso só é verdade para os iniciantes e para aqueles que não conseguem lidar com certos fatos. Para sermos minimamente felizes – uma felicidade possível, não ideal –, devemos aceitar que a verdade em seu sentido amplo talvez não seja alcançável; que a nossa razão é limitada e que ela não consegue abarcar tudo; que não existe nenhum sentido a priori para a vida; que a vida, por sua vez, é precária e cheia de contingências; por fim, que é melhor que a vida tenha gosto, prazeres e sensações gratificantes do que falsas certezas absolutas. 


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