Pular para o conteúdo principal

Postagem em destaque

O Pomo de Ouro

Páris devia dar o seu palpite, e acabar com a contenda celestial: “Seria Hera, Atena ou Afrodite, qual teria uma beleza sem igual?” Cada deusa fez a Páris uma oferta: Hera lhe daria império e glória; Atena, a mais alta sabedoria; Afrodite, o amor da mais bela mortal. Aos encantos do poder, Páris resistiu, como também aos do conhecimento, mas o amor era um convite especial. Afrodite ganhou o pomo dourado. Por Helena, Páris foi muito amado. Porém, eu não contarei aqui o final.

Mentes pequenas num cosmo incomensurável

Há muito tempo, numa galáxia muito, muito desimportante, num quadrante esquecido de um sistema solar ainda mais desimportante, encontramos um pálido ponto azul; ao nos aproximarmos, porém, um pouco mais, verificamos tratar-se de um pequeno planeta praticamente inofensivo e irrelevante. Os habitantes quase sempre entediados desse planeta queriam audaciosamente chegar aonde nenhuma espécie jamais esteve, pois achavam que, assim, sentiriam um pouco menos de tédio.

Para tal grandiloquente objetivo, criaram e desenvolveram supercomputadores, foguetes, satélites, robôs e naves espaciais. Primeiramente, colonizaram a lua próxima; depois, o planeta vizinho, o que consideraram conquistas de pouca monta. Ainda insatisfeitos, saíram em busca de planetas habitáveis fora de seu próprio sistema solar. E, para que esse intento fosse possível, construíram uma grande espaçonave usando toda a tecnologia e ciência acumuladas: uma nave totalmente autossuficiente para abrigar várias gerações dessa espécie audaciosa e entediada, pois se tratava de uma viagem muito, muito longa — uma viagem na qual o curso inteiro de uma vida não era quase nada. A nave teria que ser um lar, mesmo que provisório, para os descendentes da equipe de bordo original.

A viagem inicia-se. Gerações e gerações se sucedem. Após muito tempo perdidos no espaço, enfrentando problemas técnicos, impasses éticos e falhas no computador central, não encontram nenhum planeta que possa sustentar minimamente a vida, tampouco encontram outras formas de vida. A viagem prossegue. A imensidão e o vazio parecem não ter fim. O objetivo inicial da missão acaba sendo esquecido, e histórias e mitos passam a povoar o imaginário dessa desalentada tripulação.

Centenas de anos depois, quando já não tinham quase nenhuma esperança, encontram um sistema solar com colônias abandonadas. Ficam eufóricos com a concretização de um sonho: existe vida no universo, e vida inteligente. Procuram avidamente por todos os lados, mas encontram apenas resquícios de uma antiga e avançada civilização há muito extinta.

De repente, uma esfera de azul estonteante é detectada pelos radares e sensores da nave. O computador central confirma a compatibilidade do planeta — finalmente, um lugar habitável. Após uma aterrissagem perigosa, os sobreviventes dessa longa jornada ficam extasiados com o que veem: imensas florestas, rios, mares e oceanos, além de grande diversidade de seres vivos, formada basicamente por animais estranhos de baixa capacidade cognitiva.

Curiosamente, em algumas partes desse planeta abandonado, ainda era possível encontrar pequenos sítios arqueológicos deixados pelos primeiros habitantes daquele mundo. Muitas hipóteses do que teria acontecido foram aventadas; contudo, com o tempo, até mesmo essas histórias acabaram no esquecimento. O planeta foi, aos poucos, totalmente colonizado.

E, apesar de tudo, o tédio ainda persistia.


Comentários

Compartilhe:

Sugestões para você

Carregando…