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Entre poemas e cafés

Alguns poemas não amadurecem no papel: resistem. Alguns cafés só se tornam o que são por escolha. Entre uma xícara e outra, entre o rascunho e a versão definitiva, algo repousa, decanta, perde corpo, ganha aroma — fruto do tempo acumulado, do lento devaneio e de escassas garantias. Um grão agridoce torrado e moído, um verso limado e medido, uma vida coada e revista. O manuscrito incompleto, o café já frio e algo que não se explica.

Apatia

Alterno entre a apatia e a irritação,
depois varro as migalhas de afeto para debaixo do tapete.
Você não está aqui comigo,
ninguém está;
são apenas telas escuras refletindo pálidos reflexos.
É sempre a mesma coisa,
dia após dia,
um verdadeiro freak show:
guerra, pandemia, fake news,
ignorância travestida de militância.
E eu olho nos seus olhos mais uma vez,
mas você não me vê.

Um silêncio aterrador se esconde por trás do espelho.




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