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Mostrando postagens de 2018

composição poética

um poema como um soco no estômago tentativa vã de fazer com que você reaja acorde de uma vez de seu sono sem sonhos um poema como uma delicada flor fazendo com que você aprecie a beleza o magnífico esplendor de gestos pequeninos um poema sem pudor que fale aquilo que é necessário que nos envolva com sua crueza e sinceridade um poema além e aquém longe e perto – trevas e luz paradoxo de uma vida plena de possibilidades

Sereníssima

Muito abaixo da superfície em um ponto equidistante entre a efervescência criativa e o desejo sem fronteiras está o cerne de um espírito ímpar E mais fundo ainda escondida até de si mesma a essência indelével de uma composição cujos primeiros acordes ainda ecoam uma sinfonia que transcende tempo e espaço fonte germinal de todo amor

Aquarela

Quero o verde da esperança, o roxo da dor, o azul da serenidade, o vermelho do amor, o cinza da tristeza, o branco da paz... Quero, enfim, o colorido da vida simplesmente, nem mais nem menos. 

Saudade

Aqui repousas tão perto e tão longe dentro daquilo que chamo coração Olho pela janela entre nuvens passageiras vejo o reflexo triste da lembrança: tempo de infância época de dourados sonhos nostalgia de um natal de mármore.

Ciclos

solstício de verão momento de desacelerar de olhar para dentro lembrar que tudo se renova tudo se transforma toma novos contornos pensar que fazemos parte do ecossistema não somos animais apartados de tudo tempo de ir além de calma e tranquilidade luz, energia, expansão

Nadificação

Desejo inconsciente de nada desejar de viver como pedras sem querer coisa alguma plainando sob o abismo sem sonhos nem expectativas Morrer um pouco a cada dia micromortes anunciadas que nos fazem amadurecer Lento processo de erosão, de desprendimento... milhões de toneladas de gelo que se deslocam rumo ao vasto Oceano

Sanidade

Ei-la, exsudando feminilidade, bem à minha frente. Outra vez não me faço de rogado; ébrio de prazer, levo-a ao delírio. Não procuro extrair da vida algum sentido, muito menos perco tempo com homens-sepultura; contento-me com o fugidio momento, com o etílico prazer de noite em boa companhia. Não tenho mais idade para me aborrecer à toa. Não quero estar com quem não ousa. Cala-te! Beija-me! A ilusão nos persegue por todos os lugares; no alvor da manhã, rasgamos o véu da loucura.

A Possuída

Devassamente me entrego ao homem que tanto cobicei Submeto minhas curvas a todos os seus caprichos, Vassala do meu próprio tesão Perdida nessa cama vazia Entre lençóis úmidos, sujos Com forte cheiro de suor e desejo insaciável Planejo o próximo gozo Não me venha com esse olhar reprovador! Conheço bem o seu puritanismo Não me prendo a ninguém, furtiva que sou Quero arder apenas, arder com intensidade.

Pathos

(Poema de Samuel Rocha) Borboletas no estômago – sussurram os enamorados – Nunca senti! Não a paixão, essa indubitável alcunha humana, as borboletas. Sempre pareceu-me mais com um aperto no peito Pela angústia tomado Pela alma, sempre pueril, inebriado Temido pelo coração cansado. Que, bem agora, tivesse pernas, estariam bambas Tivesse olhos, estariam suspeitos Tivesse razão, estaria longe Longe do perigo dessa roseira sem rosas O algoz é inexorável. Nada daria errado, tinha certeza! Eu estava errado. Experiência que de nada serve! Como se defender do ataque inesperado? Felizes os que não se apaixonam! Para amar, sou inadequado.

Poema para quem tem pressa:

Fui com tudo. Fiquei sem nada. Voltei feliz!  

Rosas... Violetas... Tão azuis...

(Autoria: Gleice C. Lanzoni) Não sei por que, mas sempre gostei mais da cor azul. É uma cor que me atrai profundamente, até o âmago da minh'alma. Talvez isso seja um resultado do meu fascínio, desde pequena, pelo céu de anil, pelo mar azul turquesa, por vestidos e olhos cerúleos... Enfim, o infinito deve ser formado por uma miríade de tons de azul, o que me faz querer desvendar e explorar cada vez mais, mergulhando no mistério celeste sem fim da existência.   Sempre achei as violetas flores muito difíceis de serem cultivadas. Elas não se adaptam a qualquer lugar,  há que se regá-las com todo apreço para não sucumbirem ao excesso de água e também para não morrerem pela falta da mesma. Penso numa analogia, que pessoas se parecem muito com flores, e para mim,  a violeta, apesar de parecer muito delicada,  é uma das flores mais bonitas e peculiares de nossa natureza. As pessoas violetas têm seu próprio mundo, vivem nele, sendo por isso muito difícil inv...

Mar de Incertezas

Debacle, fiasco, revés... Tentativas inócuas de clarificação Embaciado destino que nos acomete Experimentos, cálculos e teorias Terraplenagem, construções, obeliscos Válvulas, chips, desperdícios Vida assaz racionalizada Na esquina, à espreita, O pêndulo da dúvida. 

Cicatrizes

Trago na pele as marcas de um dolorido viver. Fui muitas vezes magoado e ferido, mas, para o meu opróbrio, tenho também que confessar que a outros machuquei. Se aprendi com os erros? Bem, acredito que tentei, que ainda tento me redimir de alguma forma. Ser uma pessoa melhor não é tarefa fácil. Somos todos imperfeitos. Achamos que o mundo gira ao nosso redor. Oh, fútil autoengano! A vida está no horizonte que vislumbramos, naqueles que amamos, no contínuo pulsar do coração humano. 

Tardança

Envelhecer sem envilecer; melhorar dia após dia. Ser mais do que se espera, seja aos oito ou oitenta anos. Ver a grandeza nas pequenas coisas e admirar a beleza que nos espreita. Tanto, tantas coisas a se fazer... Correndo contra o tempo, buscando muitas respostas! Talvez encontrar o que ainda nos falta e amar, amar sem medo, sem nenhuma explicação, incondicionalmente.  

Roda da Fortuna

Contínuo rastejar rumo ao Nada. Petrificante sensação de agonia. Paradoxos de uma vida desgraçada. Pútrido ar que impregna e asfixia. Rima rica, frase feita, parco horizonte... Amores, trabalho, família, ah, nem me conte! Tempestade que aos poucos se avizinha; Calmaria após tudo para a alma pobrezinha. 

Fortuito

Seguir apressadamente pelo caminho da insensatez... Perder-se dentro de alguém em busca de si mesmo... Fazer desta vida algo melhor do que ela realmente é... Laivos de ternura, sonhos de verão, ciprestes e amargura. Um porto amigo, um lugar onde enfim repousar; ali, algures perto do coração selvagem, algo acontece, surgindo inopinadamente, somente para um dia,  sem nenhuma explicação, desaparecer nas brumas da tempo. 

Eu e outras quimeras

Às vezes, sou efusivo e caudaloso; às vezes, frio, calado, indiferente. Tenho a solidão por companheira e o sol da ilusão como farol. Não sou tantos quanto queria nem sou aquilo que sonhara. Proscrito de mim mesmo, a vagar sem horizonte, sou o vislumbre sem viço de outrora, sou um turvo despertar hora após hora.

Ela

Perdido no caminho que me leva à loucura, eis que a encontro, candente e bela; não é um poço de ternura, mas sabe resolver toda querela. Sua ausência é sempre logo percebida, pois altera as cores por onde passa. Tem um quê de “trem desgovernado”; só que nunca descarrila, tudo enlaça! Regressa sem prévio aviso; parte quando quer. Caminha nos astros, distraída... Ah, quem pode com tal mulher!

Serenidade

Entre as flores que vicejam em ledo prado, atrás de muros que nada protegem, lá, longe de tudo, em meio à proteção que eu mesmo inventara, olho atentamente para tudo e não sinto nada. Começo então a correr e a todo custo tento fugir de mim mesmo. Depois de algum tempo encontro uma cerca, casas, uma realidade. Pulo a cerca, respiro fundo, observo atentamente as casas; rachaduras, sofrimentos, risos, vidas entrelaçadas. Uma forte chuva começa a cair e, cansado, deito-me na relva molhada. Depois de algum tempo, tudo volta ao normal. No céu, entre nuvens que se dispersam, há um brilho, um calor, uma dádiva.

Fuga

Abandonei a todos e fui-me embora. Não disse para onde iria, não deixei nenhum recado, apenas segui em frente. Atrás, as recordações; à frente, o silêncio. Tentei apagar todos os resquícios de uma náufraga existência. Busquei, em vão, o que a mim não pertencia. E, quando tudo se mostrava irremediavelmente perdido, eis que algo inesperado aconteceu. Com um afável sorriso no rosto e um olhar compassivo, numa rua erma e esquecida, lá estava você outra vez vindo ao meu encontro.

Frivolidade pequeno-burguesa

Não quero escrever nada muito profundo, não quero ser tomado por um tolo sentimento do quanto os oprimidos sofrem, ou de quanta injustiça há no mundo; quero apenas viver aquilo que pode ser vivido. No prosaísmo do cotidiano, papo furado entre amigos, boa comida, um bom vinho, trabalho – dia após dia, descanso, família. Sempre contra um mundo melhor , contra um novo homem , mas com posturas e valores, é claro; só os chatos e entediados já acordam pensando em revolução. 

Decadência

No altar do Nada, em meio a corpos e coisas, contemplo a deterioração constante de tudo. Uma piada sobre algo do cotidiano; um cão que ladra; uma mulher que passa. Dias, semanas, meses, anos... A imagem que vejo no espelho não é mais radiante. Sempre uma única direção, sempre o mesmo acre sabor. ... Deleito-me, enquanto posso.

Burguesia

Um brinde à burguesia! Ela não fede, mas, como todo mundo, quer também ficar rica. Não quero aqui fazer poesia, quero falar mesmo é da vida comezinha; aluguel, contas, plano de saúde, uma boa escola para os filhos... Não é nenhum crime querer algo mais! Vender, comprar; ter princípios e valores; crescer na vida à custa do próprio labor. Uma piscina cheia de ratos é própria daqueles que vivem do suor alheio, daqueles que, por não suportarem a própria mediocridade e incapacidade, adoram culpabilizar aquilo que chamam genericamente de “O Sistema”.

Evanescente

O que nasce, o que medra, o que fenece; tudo está circunscrito no tempo, tudo é frágil, limitado, efêmero. Estações que se sucedem; precipícios que se avizinham. O medo da aniquilação, do regresso ao nada, intensifica os prazeres do agora. Na natureza selvagem, junto com outros animais, o animal homem constrói seu refúgio, cria seu próprio mundo e inventa outras tantas possibilidades.

Dissolução

Não existe nada mais constante do que a inconstância. Hoje vejo. Amanhã não vejo. O que parecia eterno se dissolve aos poucos. Eu miro outra vez teu conhecido semblante e a única coisa que enxergo são lembranças. Dia após dia... Ano após ano... Partidas, encontros; idas e vindas. Ergo-me mais uma vez e prossigo.

Impermanência

O açoite da desesperança assola o mundo dos vivos, dilacerando sonhos, fantasias e expectativas. Cravado no coração das trevas, um mistério sepulcral se esconde. No umbral último, a seguinte inscrição: “Abandonai, vós que entrais, aqui toda a esperança.” Nove círculos de agonia, dor e sofrimento. A alma como um leito seco de rio Uma angústia silenciosa e crescente Um passo em falso abismo

Voltar às coisas mesmas

Desafiar o canto da sereia do conformismo. Ser aquilo que se é, e não aquilo que os outros gostariam que você fosse. Viver no real, na concretude do cotidiano, por mais tedioso que ele possa muitas vezes ser. Fugir de idealizações e abstrações que não nos levam a nada. Olhar uma árvore e ver uma árvore. Não ir além nem ficar aquém. Despir-se de um eu velho e carcomido. Mirar-se no espelho, sem medo. Ver. Pensar. Ser.

Percepção

Eu sou um epicurista, hedonista, egoísta, materialista, niilista, cético e tudo o mais que você quiser. Não almejo grandes altitudes filosóficas, não busco a verdade, não me preocupo em ser mais virtuoso, quero apenas fruir. Sou pela negação dos grandes sistemas de pensamento, pela negação das grandes doutrinas teológicas e pela não aceitação de tudo aquilo que tenha um caráter pré-cozido. (Seria quase um solipsista, se isso fosse realmente possível.) Não tenho nem quero ter onde repousar a cabeça. Assim como não acredito em um mundo melhor, também não acredito em um homem melhor, um homem que supere a si mesmo. Sou extremante cético quanto ao aprimoramento progressivo do ser; estamos em contínua mudança, é claro, mas nada nos indica que tal movimento siga rumo a algo mais edificante. Sei que a vida é um entreato, um breve e fugidio momento, delimitado por dois grandes abismos. Sigo, abujamramente , caminhando no incerto, nesta causa perdida, provocando e idolatrando a dúvida. ...

Absurdo

Seres insignificantes, sem nenhum propósito, perdidos na imensidão indiferente do Cosmos, buscam algum sentido, mas nunca o encontram. Muitos, desesperados, tentam inventar um; acham que uma ilusão institucionalizada diminuirá de alguma forma a angústia que sentem. Outros, mais sensatos, veem nisso uma oportunidade; se não existe sentido algum, podem então criar um para si mesmos, fazendo de suas vidas aquilo que quiserem – uma obra-prima ou uma garatuja.  E há, em um número muito menor, aqueles que abraçam o absurdo da existência ao compreenderem a inutilidade de toda e qualquer tentativa de procurar atribuir sentido ao que quer que seja.

Solilóquios modernos

Muitos “amam” a diversidade, mas não conseguem conviver com o diferente no seu dia a dia. É crescente, infelizmente, o número de pessoas que desistem do diálogo, que preferem ficar com o monólogo da sua própria verdade pessoal projetada naquilo que chamam de seus interlocutores . Se os outros devem ser apenas um reflexo daquilo que se é ou pensa, então todo debate verdadeiro já se encontra natimorto, pois o que sobrevive daí é apenas uma cópia barata, mera expressão de um autoprazer intelectual.

Meine Lippen

Em minhas veias corre uma incandescência, um líquido que tende a se solidificar. Por que continuar falando de amor? Por que viver buscando a magia? As desilusões são o que existem de mais constante; os sonhos nunca se realizam! Para reacender a chama escondida do ser, para sentir o afetuoso sabor de lábios ardentes, para alcançar, enfim, o beijo da vida, é preciso sempre, por mais inútil que pareça, continuar.

Bem-aventuranças de um desaventurado

Bem-aventurados os que não amam ardentemente, porque viverão uma vida sem grandes desilusões; Bem-aventurados aqueles que nunca se apaixonam, porque não enfrentarão as tormentas e convulsões de um estado febril; Bem-aventurados os que nunca sofrem por amor, não porque serão recompensados, mas porque viverão bem melhor assim.

Opacidade

Nos confins inexplorados do Universo, uma improvável lágrima se forma; a diminuta partícula, ao longo de bilhões e bilhões de anos, vai agregando massa e adquirindo velocidade. Muitos veem tal fenômeno como um sinal de esperança: “Deus finalmente está ouvindo nossas preces!” Outros, por sua vez, predizem o fim catastrófico da Terra: “Já era chegada a hora de encerrarmos essa nossa medíocre perambulação.” Os cientistas, como sempre, não chegam a nenhum consenso. O anúncio da rápida e eminente aproximação do estranho corpo celeste cria um grande alvoroço. Todos querem vê-lo. No entanto, para decepção geral, ele vira à direita em Saturno, perdendo-se distraidamente na escuridão do espaço.

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