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Mostrando postagens de 2022

AURORA

Deuses que podemos tocar, mundos que podemos ver, imperfeições que nos fazem humanos: tudo parte da comédia divina e mundana do cotidiano. Sou um pagão, um herege, caminhando entre lobos, entre criaturas que dançam no escuro. Para além do dionisíaco e do apolíneo, do sagrado e do profano, um senso de que só a impermanência realmente permanece, de que o nosso tempo está se esgotando. Prazeres secretos, curas para aquilo que não há cura, sonhos que mais parecem pesadelos; sucessão absurda, poema pretérito.

Foto instantânea

Demorei muito pra chegar até aqui: anos de sofrimento, quedas e silêncio. Posso agora tocar os astros, ouvir o som das esferas, ultrapassar o mar da solidão. Posso olhar para trás sem remorsos e para frente sem ansiedade. Posso, enfim, ceder; ser derrotado mas mesmo assim vencer.

Apatia

Alterno entre a apatia e a irritação, depois varro as migalhas de afeto para debaixo do tapete. Você não está aqui comigo, ninguém está; são apenas telas escuras refletindo pálidos reflexos. É sempre a mesma coisa, dia após dia, um verdadeiro freak show : guerra, pandemia, fake news , ignorância travestida de militância. E eu olho nos seus olhos mais uma vez, mas você não me vê. *** Um silêncio aterrador se esconde por trás do espelho.

Um dia

Um dia sem amor, apenas um... *** Por todos os lados, pessoas que nunca saem do personagem, que nunca abandonam o script ; ficções de uma vida heroica, cheia de valores e virtudes, em um mundo caótico e sem sentido; facções que se digladiam, dia após dia, incessantemente, por um naco qualquer que seja de fama e poder. *** Um dia de loucura e frêmito, um dia de ousadia; bem, quem sabe um dia.

Cotidiano

Nem tudo é poesia, mas bem que poderia ser, ser diferente, diferente e contagiante. *** Caminhar descalço na grama, e não sair esbravejando discursos de ódio; ser gentil e atencioso, e não ter certezas absolutas; parar, respirar fundo e ver com novos olhos, e não seguir insanamente um ressentimento anacrônico. *** A lua ainda brilha no céu matutino, e o céu está opressivamente azul; tudo parece tão igual na superfície das coisas.

Disparate

Debaixo do sol ofuscante do meio-dia, segredos que não posso ver, verdades que não posso tocar. Nas retas curvilíneas das perguntas sem respostas, fantasmas e sombras, correntes e grilhões. Estilhaços por todos os lados; reflexos de uma existência sem sentido. O absurdo vai crescendo aos poucos, como um musgo, tomando conta de tudo. *** E o caminho está fechado, obliterado, pra nós.

Ouroboros

Para além do mundo físico, deixando para trás traumas e contradições, eu vislumbro vida e destruição, morte e renascimento. Há um oceano dentro de mim, uma natureza cruel e indiferente, um ciclo infinito de caos e ordenamento. Sinto um esvaziamento completo, um silêncio obliterante; tudo parece tão sereno e doloroso, tão puramente apocalíptico. *** Lábios frios, falso horizonte, águas calmas; ah, caro Caronte. ∞

O Fim do Mundo

Crisântemos, Escombros, Estática Nenhuma música no rádio, nenhum reality show na televisão, nem mesmo memes engraçados nas redes sociais ou vídeos de gatinhos fofinhos no Youtube ; nada, nada mais consegue reter minha atenção. Por fora, no mundo exterior, tudo está idêntico ao que sempre foi; as mesmas piadas tristes, os mesmos homens enfadonhos. Já por dentro, no meu mundinho interior, vejo crisântemos em meio aos escombros do caminho, ouço a estática que nada significa, pois simplesmente não precisa significar nada. Estou cansado dos profetas da obviedade, das canções de amor daqueles que não amam, da emotividade incontida que a ninguém comove. *** O fim do mundo pode começar a qualquer momento: pode ser uma nova chance ou apenas dor e lamento.   memento mori

Pequenas Grandes Metas

Livrar-se da feiura e romper toda clausura; seguir os caminhos da beleza e não ter mais qualquer certeza, sobretudo certeza devoradora e absoluta; entrar na ignota gruta e sair de lá diferente; gritar com a atrasada gente e nunca, jamais, em hipótese alguma, nunquinha mesmo, olhar para trás.

Randomicidade

Nada, absolutamente nada, antes ou depois. No meio, dor e amor imensos. Sem pátria nem cátedra, apenas láudano e pântano. Vapores translúcidos e sóis multicolores onde garotos e garotas bonitas vagam, perdidos. Um sulco aberto na alma, um vazio preexistente e, no mais, pura aleatoriedade.

Compondo versos

Aqui está a minha vida, talvez não a vivida, mas a vida inventada, emoldurada, transfigurada.   Busca constante por verossimilhança, tentativa de soar o mais plausível possível, de fazer do falso, verdadeiro, do real, surreal. Comboio de emoções não vividas, mas também de dores excruciantes, de sentimentos extasiantes.   Eu componho versos singelos, escrevo sobre dragões e castelos, sobre a vida e seus flagelos, tudo isso tão somente para fortalecer os elos.

A Estrada da Desolação

O passado parece irrelevante, e a minha mente vaga no além-horizonte. Fragmentos de uma possível existência, caminhos bifurcados e incompreensíveis, ledos enganos que nos empurram para frente, mas nenhuma seta ou indicação. Meus pés sangram à beira do caminho, e mais uma tempestade se aproxima; preciso continuar, não posso desistir, mesmo não tendo para onde ir.

Janeiro

Janeiro – quente e chuvoso –, que sempre quer mais, que nunca se satisfaz. Lânguidas tardes que não terminam; pessoas que não dizem nada de interessante. Tédio nas noites modorrentas. O céu está mais uma vez carregado de nuvens escuras, e aqui dentro também está escuro. Chuvas torrenciais, alagamentos, dilúvio.

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