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Entre poemas e cafés

Alguns poemas não amadurecem no papel: resistem. Alguns cafés só se tornam o que são por escolha. Entre uma xícara e outra, entre o rascunho e a versão definitiva, algo repousa, decanta, perde corpo, ganha aroma — fruto do tempo acumulado, do lento devaneio e de escassas garantias. Um grão agridoce torrado e moído, um verso limado e medido, uma vida coada e revista. O manuscrito incompleto, o café já frio e algo que não se explica.

A Dor de Existir

Sombras, resquícios, fragmentos...
O que resta a um homem
cansado de tanta labuta
e de uma vida vazia, murcha,
sem sentido?

Este que agora persiste
está de mãos vazias,
pés descalços, machucados.

No coração, ele traz:
saudade nenhuma,
nem dor, nem mágoa,
muito menos tristeza ou alegria,
ódio ou rancor;
quem sabe talvez,
bem lá no fundo,
alguma paz.


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