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Entre poemas e cafés

Alguns poemas não amadurecem no papel: resistem. Alguns cafés só se tornam o que são por escolha. Entre uma xícara e outra, entre o rascunho e a versão definitiva, algo repousa, decanta, perde corpo, ganha aroma — fruto do tempo acumulado, do lento devaneio e de escassas garantias. Um grão agridoce torrado e moído, um verso limado e medido, uma vida coada e revista. O manuscrito incompleto, o café já frio e algo que não se explica.

REFLEXOXELFER

Hoje, ao acordar, olhei-me no espelho,
e tal foi o meu susto que empalideci;
aquela não podia ser a minha imagem,
em qual ponto do percurso eu me perdi?

Narciso (Caravaggio, 1594-1596)

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