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Memória, uma infiel guardiã do passado

O tugúrio esquecido, o de minha infância, onde muitos anos passei, hoje me veio à lembrança. Ele ficava em um vilarejo que ainda consigo ver, através de lentes açoitadas pelo tempo, como um lugar imperioso. Lá os homens andavam cabisbaixos, e as mulheres, silenciosas; um arbítrio férreo tentava solapar toda vontade, e leis misteriosas procuravam reduzir o espírito humano a pó. Eu corria, saía em disparada, tentando de todo modo escapar dessa sina atávica, e acabava sempre voltando.

Em tua companhia

Em nossas tardes deleitosas, o surgimento de afinidades eletivas, a fusão de almas que se atraem. Um souvenir na penteadeira, um antigo livro na estante; uma agradável reminiscência, uma poética dedicatória. Ao som da tua voz equidistante, uma sucessão de ideias, sensações e sentimentos;   perto mesmo que longe, vida além-horizonte. Ermos sítios do espírito à espera de uma luz; tu és para mim aquilo que nunca se traduz.

Dolce far niente

Alegria de nada fazer, de repousar nos teus braços, de ouvir tua voz. És remanso acolhedor, luz benfazeja, sacrário de ternura. Com teu toque delicado, afastas a noite perene, desanuvias meu humor. Mergulho de cabeça no leito das horas, flutuo em meio a um céu de doces sensações; desejo ardentemente  que o dia não termine . Absorvo mais uma vez o aroma de tua essência indecifrável, deixo teu olhar aquecer minh’alma; diante de ti, no silêncio da passagem inexorável do tempo, sinto a quase completude do ser. 

Vanitas vanitatum

Sou uma vítima de minhas próprias expectativas, um artista a produzir um mundo às vezes edulcorado, um servo voluntário de um amor desfeito. Na memória, empolgações fugidias de uma noite sem verão; neste momento, o contínuo tédio das horas tristes que nunca me abandonam. Feridas, mágoas, cicatrizes; um vívido pesadelo que não passa. Vou adentrando pouco a pouco no terreno insólito de uma solidão que se faz cada dia mais aguda e sufocante. Há muito já se passou o tempo do desespero, do grito e da convulsão; trago comigo apenas uma esperança desesperançada e um vazio crescente ao longo desta eterna madrugada.

Palimpsesto

Na face oculta do medo, há um ódio arraigado prestes a eclodir. Quando palavras sem sentido, cicatrizes invisíveis, ressentimentos e humilhações pululam em um interior dilacerado, algo de inominável toma forma. Lágrimas de sangue, iracúndia, irracionalidade, tudo vem de uma vez só, extinguindo qualquer réstia última de luz. E a escuridão se torna onipresente: bestas-feras saem de seus covis.

Algures

Prados verdejantes, oh, bucólica lembrança Do tempo em que éramos pastor e pastora (Glauceste e Nise, Marília e Dirceu, Elmano Sadino...) E vivíamos num frugal cotidiano, Longe do ritmo frio e incessante do moderno maquinário, Mas perto do calor ardente de uma reciprocidade irrestrita. Oh, colina árcade de minhas reminiscências, Onde eu era um artesão das palavras, Um flautista alvissareiro a reverenciar, Com meu singelo canto, A natureza, o equilíbrio e a perfeição. Nos campos helênicos cheio de flores, Ou entre as minas de um ouro colonial, Preenchia-se o pavor do vazio Com odes, sonetos e canções. Cinzas de outrora, poesia esquecida; Nada mais restou daquela outra vida.

Théos

Presente, dádiva, vidas que se transformam. Ver você assim tão pequeno, tão frágil, me faz perceber o quanto ainda tenho a aprender; não se trata aqui apenas de uma lição de humildade, mas também de uma imersão em um universo de afetuosidade ainda não explorado. Ver você assim tão inocente, tão adorável, me assusta muito e me alegra imensamente, fazendo-me, homem calejado, lacrimejar. Você é tudo o que um dia sonhei, meu mundo, meu homenzinho querido, meu filho. 

Fino Amor

Teodolinda, Leonor, Heloísa, iluminuras de um passado descontente, doutas mulheres de uma ímpar tessitura, fazedoras de sonhos e sofrimentos. Quisera eu viver provençais amores, com seus êxtases, sais e olores. Quisera poder me arrastar pelo mundo, ungido por um amor premente, dizendo a toda gente que culpado sou. Ah, e pelo menos uma vez, ao som do alaúde, contemplando tal formoso semblante, conseguir me aproximar num rompante e confessar meu  anacrônico  flagelo: um amor cortês sem castelo.

Iridescentes Devaneios

Num rio que corre ao luar, uma canção que jamais será ouvida. Quando fecho os olhos, iridescentes devaneios colorem toda a gris existência. O Condor voa acima dos ciprestes, vales e montanhas, perpassa com leveza o que antes era sofrimento e morte. Reescrevo os próximos capítulos, desfaço a hermenêutica vigente e me descalço para seguir em frente. Na dourada e sangrenta estrada de tijolos esquecidos, ergo minha voz e canto: amor, miséria e pranto.  

Infelicidade

Uma ânsia maldita por perder-se em alguém, encontrando assim algo que tenha algum brilho, mesmo que parco, em meio a um mundo opaco de afetos. Uma ânsia maldita que habita o âmago de minhas trevas, que permeia toda a aridez desta alma sedenta por qualquer resquício de algo que minimamente me transcenda. Uma vida como um eterno caminhar sem sentido, com pés ensanguentados, até o lúgubre abismo. Uma vida como um grito de agonia silencioso que nunca será ouvido.   

Hipótese temerária

Descrevê-la como corajosa, espontânea, autêntica, é de uma obviedade ululante. Por certo, caso eu lhe dissesse algo do gênero, ela me responderia: "diga-me algo novo, por favor, alguma coisa que eu ainda não saiba". Eu ficaria então perdido, atônito, sem palavras. Meu encantamento por ti me faz emudecer; sou um escravo da beleza e do desejo. Depois do susto, faria de tudo para lhe agradar, diria o que não sinto, multiplicaria palavras sem necessidade. Ela perceberia o simulacro, leria sagazmente as entrelinhas, abria as asas e voaria para longe.

Fogo na Alma

Explosão de cores, sons e sensações: algo aconteceu em mim. Não me sinto mais o mesmo; o espelho reflete uma estranha imagem. Estou perdendo o controle, não consigo mais resistir, está reascendendo em mim uma antiga flama. A desordem, infelizmente, está posta. Eu bem sei que corro um grande risco; tudo tem o seu custo na vida. E, mesmo assim, lá vou eu de novo! Mamma Mia!

A Ilusão do Self

Um pensamento atrás do outro: trabalho, família, obrigações, vontades, obsessões. Um sentimento de estar perdido em meio a um caos de alucinantes reverberações racionais; um desejo de pôr em ordem todas as coisas, de fazer do mundo um fiel autorretrato. E eis que tropeço (por insistência) em uma pedra psicodélica, caindo no vazio obliterante da existência. Percebo, pois, que uso muitas palavras, muitos adjetivos, que penso demais. Olho atentamente, mantenho a minha atenção plena, e vejo a minha cabeça desaparecer; sou um com o mundo e não há mais um “eu”.

Desiderato

Angústia, tristeza, solidão, fim do mundo, falta de sentido, isolamento autoimpingido; quero encontrar algo que me distraia da realidade. Nada posso contra o caos que me atordoa; a noite é longa, e o sono não chega. Por ruas desertas, o perigo se esconde em cada canto, já o silêncio se torna um incômodo, um abismo exasperante. E a vontade não morre, apenas hiberna, aguarda o momento propício, o tempo de reaproximação.  

Nepente

Olvidar a angústia que me rasga a pele, a sensação de que algo me persegue, deixar para trás a memória, a vida, sonho. Não há muito mais o que se fazer; mergulho de uma vez por todas no nada que me engolfa, que me emudece, fazendo-me aos poucos desaparecer. De repente, e de forma previsível, o silêncio se faz pungente; tenho o que preciso, mas não aquilo que mais queria. 

Desilusões

Estou sem chão, sem horizontes, em queda livre... Perdido no espaço que nos separa, eu me encontro aturdido, cansado; sou uma sombra, um presságio. O tempo passa apressado, uma casa sem alicerces rapidamente afunda, e eu, dia após dia, arrefeço pouco a pouco. Está tudo diferente, mas também igual. Ainda é dia, mesmo que não haja mais alegria, sonho ou sol.  

Extemporâneo

Fora do tempo Perdido no espaço Homem das cavernas com smartphone Nem tudo evolui no mesmo ritmo Penso que sou grande Moralmente infalível Que meu conhecimento é insuperável Mais uma vez: "Ignorância é força" A cada dia que passa durmo pior Sucessão frenética de fatos desconexos Caos, insipidez e pouco afeto Vida vivida apenas por viver

Palavra-chave

Eu só canto em aflição; meu silêncio é paz, não felicidade. Quando não tenho o que dizer, calo-me; quando tenho, calo-me também. Há muitas palavras no mundo, poucas traduzem realmente aquilo que quero dizer. Um olhar revela muito, e há muita coisa dita no não dito. Atos, palavras e omissões; sou culpado, disso não tenho dúvida. Conjugo o tempo presente, o único que possuo, e arrasto comigo, por onde quer que eu vá, os grilhões da esperança.

Encontros e Despedidas

você veio com o vento chegou de mansinho sem que eu percebesse preencheu os espaços vazios acendeu todas as luzes fez o que queria você sumiu com o vento foi embora de repente sem dizer adeus deixou o que não tinha criou uma lacuna fez nascer um entorpecimento e um não sei quê que me aperta sem cessar o peito (... vidas vividas no silêncio.)

Debacle

Quero escrever algo que soe sincero, que não tenha cara de interpretação, de algo forçado, calculado, ensaiado. Quase posso tocar o fundo, eis a minha queda iminente, eis o momento de tirar a máscara e... perceber que há outra em seu lugar. Descreio da razão, da minha capacidade de tudo compreender. Fiz escolhas relativamente questionáveis; preciso conviver com as consequências. Há certezas por todos os lados; tenho medo do futuro. 

Escriba moderno

Tabuletas de argila, pergaminhos esquecidos, códices medievais, livros impressos, eis um mundo redescoberto. Jornais, revistas, panfletos; uma profusão de palavras e significados. Bits e bytes, blogs e redes – acesso instantâneo; o leitor transubstanciado em autor, uma democracia conturbada. – Como cansa tudo isso! Ah, os clássicos, um acesso ao passado, uma luz para o futuro.

Iminência

Minhas mãos tremem Sinto um suor frio Há um perigo iminente Corro um risco imaginário Sofro por antecipação Desejo ardentemente ter mais do que posso Viver de maneira intensa Gritar, me perder nos teus braços Amar sem fronteiras Frustro-me Tantas limitações e imperfeições Morro hoje, mas acordo vivo amanhã Persigo e não encontro Não desisto, ainda.

Fragmentado

O joelho ralado, merthiolate, um colo acolhedor Me lembro cada vez mais do passado E o futuro envolto em silêncio Perguntas sem respostas Mensagens não respondidas Solidão, amor... desamor Algo se perdeu: Memórias fragmentárias Ser disperso no tempo Caminhos trilhados na desesperança Amigos, sombras, resquícios Lento emudecer.

Na era dos smartphones...

No deserto árido da alma, uma gota de água é oceano. O rastejar entre pestilências transmutou-se no novo andar. Solidão a dois, a três, a quatro… Ah, o contentar-se com aquilo que nos é oferecido de modo tão parco e negligente. Fingir amar quando não se ama; fingir não amar quando se ama; fazer do fingimento uma carapaça. Visualizou, mas não respondeu – eis o novo drama de Dirceu. Enquanto isso,  Marília deleita-se com o seu grande número de matches. – Não, não quero conversar com você! Você está muito perto! Eu prefiro muito mais falar com aqueles que estão em outro continente ou, quiçá, em outro mundo.

Escravo do desejo

Estou preso a uma coleira, a teus pés; sou um escravo do meu desejo por ti. A tua indiferença me consome e ao mesmo tempo me atrai. Vivo me afastando e voltando, odiando e querendo. Anseio pela liberdade, mas sou cativo da tua atenção, do teu carinho, do teu descaso. Sou guiado por uma vontade cega; não consigo não desejar o que desejo. Minha submissão é covarde e ridícula; se fosse mais forte, lutaria, escalaria os montes da minha vontade, limparia os meus pés na soleira da mansão do desencanto. Ah, se tudo fosse diferente, se eu pudesse não desejar mais nada...

Pedacinhos

A taça se estilhaçou, só sobraram palavras vazias, cacos pequeninos de uma história que se desfez. Na pressa de limpar, de virar a página, acabei cortando o dedo em um pedaço de memória; tantos fragmentos: confissões, risos, olhares que valiam por discursos inteiros... Sinto que me despedacei também; me transformei em poeira, fui levado pelo vento. Não tenho mais ilusões; eu sei que me perderei outra vez em outro alguém. 

Um poema quase autobiográfico

Eu tenho um olhar triste, vago, ensimesmado; converso demais comigo mesmo, e às vezes acho até que sou invisível. Tenho um carinho exagerado por pessoas prediletas, o que resulta em pouquíssimos amigos, nenhum amor. Vivo em um mundo com muitas idealizações, mas estas só me fazem sofrer ainda mais. Serenei com o tempo, descobri lacunas na razão, padeci em silêncio. Escrevo versos para não transbordar, para dizer tudo o que sinto e não sinto. Vento, brisa leve da manhã, sopra sobre mim.

Sinestesia

O sabor da tua voz A cor do teu perfume O som da tua pele O cheiro dos teus olhos castanho-esverdeados Mergulho fundo Sinto torrentes, espasmos, trepidações por todo o corpo A brisa reverbera uma suave melodia O Bem-te-vi me dá as boas-vindas Seguro firme a tua mão E as aleias se fecham após a nossa passagem. 

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