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Ausência

Estás aqui e acolá, achas tempo para tudo. Tens muitos amigos, muito trabalho, não te falta o que fazer, seja durante a semana ou em dias de folga. Quase nunca descansas: tua mente não para, estás diuturnamente a pensar, a ponderar, a analisar cada mínimo detalhe. Queres aproveitar cada instante; juntar muito dinheiro; alcançar o justo reconhecimento. Buscas, enfim, a apresentação perfeita, uma felicidade constante e a linha de chegada.

Tergiversando

Às vezes, a gente fica mesmo muito emocionado,
sabe;
ou muito cansado, irritado,
até descontrolado;
outras vezes, contente demais
(o que chateia o vizinho);
ou triste, desesperançado…
Mas tudo isso passa,
e o que fica…
Bem, e o que fica!?

Muita gente vai embora.
E é impressionante o quanto dura o afeto incondicional.
O que me faz prestar atenção ao conta-gotas,
tão metódico,
e à torneira pingando
que esqueci de consertar.

Pondero sobre o que sobra
quando o cansaço domina
e não temos mais forças,
quando o pensamento se esgota
e o tempo desmorona.

Ando falando muito ultimamente,
eu que sou deveras contido
e casmurro.

Tenho tido muitos sonhos,
dormindo e acordado,
mas não me lembro de um sequer.

No supermercado, ontem mesmo,
encontrei uma promoção imperdível.
E perdi muito tempo tentando encontrar,
veja bem,
o lugar onde tinha,
desavisadamente,
estacionado o carro.




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