Pular para o conteúdo principal

Postagem em destaque

Entre poemas e cafés

Alguns poemas não amadurecem no papel: resistem. Alguns cafés só se tornam o que são por escolha. Entre uma xícara e outra, entre o rascunho e a versão definitiva, algo repousa, decanta, perde corpo, ganha aroma — fruto do tempo acumulado, do lento devaneio e de escassas garantias. Um grão agridoce torrado e moído, um verso limado e medido, uma vida coada e revista. O manuscrito incompleto, o café já frio e algo que não se explica.

Vastidões

O silêncio, aos poucos,

vai inundando

todo o deserto do ser.

E o vazio

vai preenchendo

cada pequena fresta

remanescente.


Nas entrelinhas, uma obra inteira;

nas pausas, por si só, uma canção;

e, no espaço entre as partículas,

um universo desconhecido.


É tudo, a princípio,

tão estranho e desconfortável.

É como um olhar-se atento no espelho:

uma constatação,

um desconforto,

uma aceitação,

uma entrega

e, depois,

se a coragem resistir,

um passo adiante, rumo ao infinito.






Nota de Autor — Vastidões

Este poema nasceu de uma experiência silenciosa, daquelas que não pedem explicação, mas exigem presença. “Vastidões” não tenta definir o silêncio, mas caminhar por dentro dele. Há momentos em que a ausência se expande de tal forma que parece ganhar corpo próprio — inundando o que antes era deserto, preenchendo frestas que julgávamos permanentes.

Escrevê-lo foi um modo de observar o movimento interior que se inicia com uma constatação simples e avança até uma entrega — não teórica, mas vivida. Cada verso tenta registrar esse trajeto: do estranhamento à aceitação, da resistência à coragem que permanece, mesmo quando frágil.

O passo final não aponta para uma transcendência grandiosa, mas para uma abertura íntima: o instante em que, apesar do medo, se escolhe prosseguir. É apenas um passo — e talvez seja justamente por isso que é tão decisivo.

Fulvio

Comentários

Compartilhe:

Sugestões para você

Carregando…