Pular para o conteúdo principal

Postagem em destaque

Entre poemas e cafés

Alguns poemas não amadurecem no papel: resistem. Alguns cafés só se tornam o que são por escolha. Entre uma xícara e outra, entre o rascunho e a versão definitiva, algo repousa, decanta, perde corpo, ganha aroma — fruto do tempo acumulado, do lento devaneio e de escassas garantias. Um grão agridoce torrado e moído, um verso limado e medido, uma vida coada e revista. O manuscrito incompleto, o café já frio e algo que não se explica.

diálogo cotidiano

Vem aqui, senta-te ao meu lado, por favor,

e fala-me a respeito de tuas incoerências.

Eu sou uma boa ouvinte, não me escapa uma só palavra.

Sei que o que dizes não é bem aquilo que queres dizer,

mas por que tantos circunlóquios, tanta hipocrisia...

Ah, é tão comovente a falsidade

com que nos acariciamos dia após dia.

Eu não protesto, tu sabes muito bem,

nem ao menos me contraponho à tua iniquidade.

Aliás, sou feita da mesma matéria obscena

da qual foste inventado.

Eu não te odeio e, no entanto, não aprendi a te amar.

Sinto, muitas vezes, que fomos feitos um para o outro,

como se isso fizesse algum sentido.

Estou cansada; vou retirar-me.

Não te esqueças de colocar o lixo na rua.


Boa noite!




Comentários

Compartilhe:

Sugestões para você

Carregando…